East Side Sushi e Construção Identitária

EastSideSushi_cartaz

O texto abaixo foi elaborado como base para o seminário apresentado na disciplina Modelos Alimentares da pós do Senac: Gastronomia – História e Cultura.

Grupo:

MARIANE BANDEIRA FERREIRA MENDONÇA
LEONORA LOURENÇO DE MAURO
LETICIA FERREIRA DE SOUZA
GUSTAVO MATTOS
TAKESHI OHASHY

 

ANÁLISE DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA ALIMENTAR NO FILME EAST SIDE SUSHI (2014)

 

À luz dos textos e o debate da Matéria de Modelos Alimentares optamos por fazer uma resenha crítica do filme East Side Sushi (2014) dirigido por Anthony Lucero,  pretendendo analisar o processo de construção da identidade alimentar da personagem principal, Juana (Diana Elizabeth Torres).

O filme East Side Sushi retrata a trajetória de Juana, uma jovem latina, mãe-solo e cheia de anseios. Sua personagem representa o ser social em transformação/construção, sendo o processo fluido, vivendo em uma cidade globalizada onde se abrigam várias subculturas. Juana é uma talentosa cozinheira mexicana que quer melhorar de vida e suprir as necessidades de sua família. Apesar de possuir habilidade e conhecimento em pratos mexicanos a desvalorização social dessa cultura faz com que ela seja relegada a subempregos. Em busca de segurança e estabilidade procura um emprego num restaurante japonês, pois lá teria um plano de saúde para sua filha. Ela consegue a vaga, e lá conhece Aki, o jovem chef do restaurante que nota as habilidades de Juana na cozinha e a incentiva a aprender mais sobre sushi. Mas Juana esbarra nas tradições, não por vontade própria, mas através de seu empregador sr. Yoshida, que não admite o fato de uma mulher de outra etnia exercer a função. Apegado ao engessamento da tradição ele acredita que Juana serviria apenas para os trabalhos de bastidores, e que nunca serviria para estar atrás do balcão de sushi.

Para compreender o conflito de identidades entre Juana, a personagem principal, e Sr. Yoshida, dono do restaurante, é preciso refletir a cultura do ofício do sushi chef. A cultura do Edomaezushi, nome japonês do estilo de sushi onde o foco da degustação são os nigiris, é uma cultura incorporada a um ofício de linhagem onde o balcão é o último estágio. Para chegar ao balcão é preciso dominar todos os processos da confecção do sushi. A cultura do Edomaezushi remete à formação de Tóquio, na era Edo no início do séc. XVII, o sushi é assimilado no foodway japonês a partir do séc XVIII depois da construção de Tóquio e da consolidação da nova capital japonesa como uma metrópole. Durante o século que se passou o consumo do sushi foi incentivado pelas leis antincendio onde deixa de ser uma iguaria festiva de consumo em teatros e áreas boêmias e passa a ser uma refeição expressa para trabalhadores dos portos da baía de Tóquio.

O mundo globalizado só conhece o sushi no final do séc XX com a migração japonesa para os EUA, e lá junto com o sushi, os primeiros itamaes (Sushi Chefs) levaram séculos de tradição e técnicas, e com elas vários mitos e preconceitos. É em cima desse mito que se constrói o conflito entre Sr. Yoshida e Juana. Para a tradição do séc XVII uma mulher não teria capacidades físicas para fazer o trabalho de um Itamae. Por ter um porte frágil, a mulher, não conseguiria transportar as pesadas sacas de arroz e os enormes atuns. Por menstruarem, sua temperatura corporal não seria compatível para a manipulação do peixe. O aroma natural de uma mulher é adocicado e logo interferiria no aroma do arroz avinagrado e do peixe fresco. Esses mitos foram perpetuados dentro da formação dos Sushi Chefs e até hoje permeiam a realidade de muitos restaurantes tradicionais.

Não obstante, o desafio de ser mulher e galgar posições em um restaurante de sushi tradicional é acrescido do segundo limitante que é sua origem. Por ser Latina o processo de assimilação e incorporação do ofício parece cada vez mais distante, ao passo, em que o simples ato de comer algo, que para um japonês seria, trivial, para Juana é um processo surpreendente e inovador dentro de sua própria percepção identitária. Partindo da reflexão de Toshio Odate sobre o ofício artesanal japonês, Takeshi Ohashy reflete que para o universo cultural japonês um itamae é enquadrado como um artesão, onde o comprometimento com a profissão se dá, não só, na dedicação física e técnica, mas também moral e espiritual. Logo, o ofício do itamae é uma tradição de linhagem estritamente ligada a uma cultura nipônica de pertencimento, prática e ontologia (ODATE,1998 apud Ohashy, 2018). Ou seja, o pensamento do Sr. Yoshida sugere que para estar no balcão é preciso algo além da técnica, um conhecimento ancestral básico que Juana não conseguiria assimilar.

A trajetória de Juana conta sobre essa quebra de paradigma, e como se dá o conflito entre essas percepções e noções de mundo. Nessa jornada, constante são os pensamentos de ser insuficiente, empecilhos relacionados ao machismo, pobreza, falta de acesso à informação e a xenofobia. Pode-se dizer que, o conflito entre esses personagens é um conflito interétnico, onde ambos defendem suas próprias origens e visões de mundo . Visto que o Pai de Juana também se opõe de imediato ao objetivo de sua filha em ingressar numa carreira num restaurante japonês, defendendo que ela é uma ótima chef de comida mexicana e que deveria se contentar com isso pois conseguiria um bom dinheiro trabalhando numa Taqueria. Seu Pai representa suas raízes, sua própria cultura, na qual não estaria correspondendo ao esperado quando ingressa numa carreira tão distante de sua realidade.

Aki, cumpre a função de mediador nesse conflito. Apesar de reconhecer a competência de Juana, defende o lado do empregador. Ele se dissocia de sua posição de chef e “fala por si” ao apoiar Juana e dar a oportunidade que ela precisava para se confirmar competente para o trabalho no balcão. Com o aval de Aki, Juana adquire confiança o suficiente para pedir ao Sr. Yoshida a posição no balcão. Sumariamente negada e discriminada, Juana pede demissão e decide provar ser digna de ser uma sushi chef se inscrevendo no campeonato regional.

Juana, representa o indivíduo pós moderno, que no amalgamar das possibilidades fornecidas pelo meio, vivencia a incerteza do estranho e a solidão do pós-modernismo globalizado. Na trama a personagem passa pelo processo de desconstrução da tradição de suas raízes, para a assimilação de uma nova tradição. Durante o processo de adaptar o que já sabia ao que havia aprendido do restaurante ela se vê desenvolvendo sua própria identidade, incorporando o conhecimento de ambas as tradições para desenvolver algo que faça sentido social para sua realidade. Bauman defende esse processo como formador da identidade do pós modernismo, onde as realidades deixam de serem externamente referenciadas para começarem a ser autoconstruídas:

“[…] a desconstrução aparente de conjunturas estabelecidas, que tinham o poder de ditar normas comportamentais, obriga-nos a buscar uma alternativa. Essa alternativa nos chega na forma de uma faixa de habitats relativamente autônomos, que abordamos e aceitamos ou rejeitamos por tentativa e erro, fornecendo-nos um “padrão de automontagem”. Nossa liberdade de acesso a hábitats diferentes e, portanto, nossa capacidade de determinar nossos padrões de automontagem são limitadas, e é isso que forma a base da desigualdade na vida contemporânea. Nosso acúmulo de símbolos, que possibilitam o acesso a hábitats e aumentam nossa faixa de escolhas realistas na vida e que, por sua vez, proporcionam oportunidades de desenvolver nossas identidades pessoais e posição social, depende do nosso conhecimento sobre o s traços comportamentais exigidos em cada hábitat”

(BAUMAN, 2002 apud SLOAN, 2005)

Na trama, só após a personagem principal participar do concurso e formar sua identidade como uma Sushi Chef Mexicana ela ganha o reconhecimento de ambas as tradições (representadas pelo Pai e pelo Sr. Yoshida). Esse processo de resignificação, para Ellen Woortmann, sugere uma manutenção da tradição para que ela continue existindo na modernidade:

“A tradição não foi abandonada e as mudanças parecem constituir mais adaptações à modernidade do que alterações radicais.”

(Woortmann, pag. 57, 2009)

Com este reconhecimento, o “novo” trazido por Juana é incorporado ao “antigo” do restaurante, onde passam a coexistir ressignificando assim a tradição através de uma identidade portátil e elástica da comida e consequentemente da tradição.

Bibliografia

OHASHY, T. – Sushi, Shokunin e Modernidade: Reflexos da globalização na tradição alimentar japonesa. Brasília, 2018.

PELLERANO, J. – A gente carrega a comida com a gente: Consumo alimentar como processo comunicativo na convivência intercultural, São Paulo, 2018.

SLOAN, D. – O paladar pós-moderno. In: _______ (org.). Gastronomia, restaurantes e comportamento do consumidor. Barueri: Manole, 2005

WOORTMANN, E. F. – A Lógica e a Simbólica dos Sabores Tradicionais, em: Gastronomia: Cortes & Recortes, vol. 1, org. por Wima Maria Coelho Araújo e Clara Márcia Rodrigues Tenser, Brasília: Editora Senac, 2009, pp. 56-68.

 

 

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