Violência, arte e lixo

Violência, assim como arte e lixo, é uma questão de contexto. Demonstrando de uma forma lógica e simples:

No caso da arte- O contexto histórico e cultural conferem significado às obras no âmbito estético e/ou discursivo. Existem inúmeros exemplos que ilustram esse conceito, um dos mais conhecidos sendo a obra Fonte de Marcel Duchamp. Em qualquer outro contexto seria apenas um urinol, mas ao ser colocado em uma exposição adquiriu outra dimensão de sentido.

No caso do lixo- O contexto normalmente se refere ao entorno e à utilidade. Um fio de cabelo preso na cabeça (no lugar esperado) é bom, um fio de cabelo na comida é lixo. Uma impressora que funciona é uma impressora, uma outra que para de funcionar e portanto não tem mais utilidade é lixo.

No caso da violência- O contexto se refere a consentimento. Um tapa consentido não é violência, como é fácil verificar nas práticas BDSM ou em diversos esportes (artes marciais e outros tipos de luta esportivas). Já um toque ou beijo não consentido é violência, inclusive vale lembrar que a definição do crime de estupro não se limita à penetração, contemplando uma gama muito mais ampla de atos libidinosos sob coerção.

Apesar do contexto ser importante pra atribuir significado a tantos aspectos da interação humana e seus produtos observamos uma dificuldade impar no entendimento da violência contra a mulher, tantas vezes minimizada e desconsiderada. Isso não pode ser explicado por uma diferença de interpretação, uma vez que qualquer homem saberá identificar como violência se outro o tentar beijar ou acariciar à força. A diferença está na mulher ser conceituada socialmente como um objeto a ser possuído e portanto desprovida de humanidade, de agência e do direito de consentir ou negar.

Em qualquer discussão posterior a casos de estupro vemos uma sanha punitivista e vingativa quase selvagem, que separa o perpetuador do restante da sociedade e o identifica como elemento aberrante, quando nada poderia estar mais longe da verdade. Não vou tentar comentar decisões judiciárias pois não possuo conhecimento teórico algum para tal e existem diversos juristas capacitados que já o fizeram. Só sinto necessidade de pontuar que apesar de compreender a fúria, este problema não é individual portanto a solução também não será. Enquanto a construção da feminilidade e masculinidade mantiver essa configuração violenta e desigual nenhuma mulher estará a salvo.